08 junho, 2018

No mês do Sagrado Coração, padre abraça novamente o ministério sacerdotal


- Padre Guilherme em dia 3 de junho. Foto: Pascom Diocese de Petrópolis -

Padre Guilherme Silva dos Santos, da Diocese de Petrópolis (RJ), retornou ao ministério sacerdotal no primeiro domingo do mês do Sagrado Coração de Jesus. O sacerdote tinha pedido afastamento do ministério há cerca de um ano e meio, viveu um intenso período de discernimento e foi sustentado pela oração.

Quando os sacerdotes dizem que a oração dos fiéis os sustenta, não é apenas uma expressão bonita ou uma frase de impacto, mas uma realizadade. A história que ocorreu com Pe. Guilherme Silva dos Santos comprova este fato.




Pe. Guilherme, de 29 anos, foi Ordenado sacerdote em 6 dezembro de 2014, mas desde novembro de 2016 havia deixado o ministério sacerdotal.

Questionado sobre o que o teria levado a pedir o afastamento, Pe. Guilherme contou que "foi uma sucessão de fatos até chegar o momento em que percebi que o melhor que poderia fazer era isso".

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Durante entrevista à ACI Digital, Pe. Guilherme afirmou que embora seguisse com seus trabalhos, "internamente, aos poucos parecia que alguma coisa não estava funcionando muito bem".

"Cada vez que eu caminhava, ia percebendo que o sacerdócio parecia algo distante de mim".

"Eu tentava fazer o melhor de mim nas Missas, atendendo às confissões, ajudando as pessoas, mas quanto mais eu ajudava as pessoas nas necessidades delas, mais eu sofria. Quanto mais uma pessoa vinha com os seus problemas, ela saia bem, mas eu ficava pior ainda", contou Pe. Guilherme, que também acrescentou que "tudo que as pessoas pedem de um padre eu já não conseguia mais oferecer".

"Aprendi ao longo da minha formação que, quando alguma coisa não estivesse bem eu deveria procurar ajuda, e foi isso que eu fiz", declarou o sacerdote ao contar a primeira pessoa a quem pediu ajuda foi o seu Bispo, Dom Gregório Paixão, em 2015.

A figura de Dom Gregório foi de extrema importância para o sacerdote durante todo o processo de dúvida. Ele lembra que o Bispo pediu calma, que continuasse os trabalhos e também passou a acompanhá-lo.

Junto com o Prelado, o sacerdote ainda contou com a ajuda de seu diretor espiritual e uma psicóloga. "Continuei minha vida normal. Fiz o que meu Bispo me pediu: 'dê 100% de você como padre, viva intensamente como padre'".

Em 2016, Pe. Guilherme relatou ao Bispo que "já estava percebendo que não conseguia mais nem ser o padre que eu esperava ser, eu já não conseguia ser o padre fui formado para ser e já não conseguia ser o padre que a paróquia precisava". Neste ano, ele era vigário na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Petrópolis.




Em julho daquele ano, o sacerdote informou ao Bispo, à psicóloga e ao seu diretor espiritual que pensava em "pedir para deixar de ser padre". Por saber que essa não era uma decisão que pudesse ser tomada "do dia para a noite", seguiu por alguns meses exercendo seu ministério, "porém amadurecendo essa possível decisão", a qual resolveu "entregar nas mãos Deus".

Mesmo estando sempre confiante em Deus, "cada vez estava mais difícil de rezar a Missa, cada vez mais difícil de atender confissão, cada vez mais difícil de colocar a roupa de padre". "Quanto mais eu tentava viver como padre, menos feliz eu ficava e as pessoas que estavam ao meu redor sofriam com isso também", conta.

Por que eu quis ou por que outros quiseram?


Orientado por seu diretor espiritual, em outubro de 2016, foi para Fortaleza (CE) por um mês para participar de um retiro na Comunidade Católica Shalom, quando Deus lhe "deu uma graça de perceber que, naquele momento, o que tinha que fazer era deixar o sacerdócio".

"Muitas coisas aconteceram na minha caminhada. Teve um ponto ao longo de todo meu trajeto que não sei se foi a influência ou a mão de Deus – acho que só na eternidade vou saber exatamente –, mas, muitas vezes, decisões minhas foram tomadas para satisfazer outras pessoas, eu confiei muito em outras pessoas e isso nunca foi um problema para mim", disse.

"Diante de toda essa crise na minha vocação, já não conseguia dizer se meu sacerdócio era porque eu queria ou se era porque outras pessoas queriam".

No retiro, Pe. Guilherme disse que no último dia sentiu "uma paz". "Deus me deu a coragem e a graça de perceber que eu precisava deixar o sacerdócio para responder o que queria para ser feliz".




O sacerdote relatou que a razão fundamental para ter deixado o sacerdócio foi o seu amor pela Igreja. "Não sou o padre que a Igreja precisa e, se eu continuar do jeito que estou, não vou fazer mal somente para mim: vou fazer mal para a Igreja e, acima de tudo, eu amo a Igreja".

Deixe a porta aberta ao sacerdócio


Mãe do Pe. Guilherme beija suas mãos.
Foto: Pascom Diocese de Petrópolis
Celebrou sua última Missa em 23 de novembro de 2016 deixou o sacerdócio. "Quando entreguei a carta ao Bispo, ele só me fez um pedido: que eu não fechasse as portas ao sacerdócio, que o caminho que eu estava iniciando não era um caminho de decisão, mas de discernimento".

Sem nada, nem mesmo voz - padre contou que devido ao desgaste físico, psicológico e espiritual, ficou sem fala por 15 dias - Pe. Guilherme voltou a morar com sua família. "Eu nunca tive um plano B na minha vida, tudo o que tinha eram meus livros e roupas de padre" e "ter a minha família naquele momento foi importante", destacou.

Tempo de humilhação durante busca de emprego


"Eu saí de toda uma vida pronta para o zero", declarou Pe. Guilherme. Ao site ACI Digital, o sacerdote admitiu que o período logo após ter deixado o ministério "foi um tempo de muita humilhação, ótima humilhação". "Eu percebi que tinha subido em um pedestal e também me colocaram em um pedestal muito alto. Por isso, foi ótimo cair na realidade, uma realidade que achei que conhecia, mas não conhecia".

Tendo Bacharelado em Filosofia e cursado Teologia na Europa, Pe. Guilherme comentou que ao verem o currílo as pessoas pareciam dizer que "eu era tão bom que ninguém tinha um emprego suficiente para mim".




O primeiro emprego que conseguiu após deixar o ministério foi como auxiliar de serviços gerais em um petshop. Posteriormente, conseguiu uma oportunidade para ser estagiário na Câmara Municipal de Petrópolis, onde sua principal função era "pegar a assinatura das pessoas".

Já sendo bacharel em Filosofia, Pe. Guilherme decidiu fazer Licenciatura na mesma área. Como precisava de horas de estágio para a faculdade, pediu uma oportunidade em uma escola, na qual lhe ofereceram a vaga de professor de Filosofia para duas aulas no Ensino Médio.

Desta forma, seguiu a caminhada sem deixar de questionar o que Deus queria para sua vida, mas focado "em simplesmente deixar o sacerdócio".

Sem a eucaristia não posso ficar


"A Igreja pede que todo sacerdote que deixa o ministério não assuma nenhuma liderança. Foi o que fiz. Se a Igreja pedia que eu não servisse em nada, então, minha vida foi como de um leigo que vai a Missa aos domingos. Mas, eu chegava na hora que começava e saia depois que todos iam embora, para não falar com ninguém".

Durante um ano e meio, manteve sua vida de oração privada. "Rezava o terço no ônibus, rezava no meu quarto, mas não fazia parte de nenhum movimento e não abria a minha boca para falar nada em nome da Igreja. Ia à Missa, comungava, pedia a Deus a força e caminhava".

Com o passar do tempo, percebia "que o sacerdócio já tinha ficado para trás, eu estava bem, feliz outra vez, tranquilo e as coisas estavam caminhando".

Pe. Guilherme relatou que começou a pensar na possibilidade de um namoro, mas não queria ficar sem a eucaristia.

Ao refletir, percebeu que, de fato, "em nenhum momento eu realmente quis um namoro, começar uma relação com outra pessoa, porque eu sabia que fiz, pelo sacerdócio, a promessa do celibato e, mesmo deixando o sacerdócio, não tive a dispensa do celibato. Então, se eu me relacionasse com qualquer pessoa, eu teria que me afastar da eucaristia e isso eu não queria", manifestou.

"Mesmo não celebrando a Missa, mesmo com tudo, sem a eucaristia não queria ficar". "Essa possibilidade não havia. Se eu tivesse que fazer alguma coisa e que essa coisa me afastasse da eucaristia, sabia que não poderia fazer", acrescentou.




Mesmo havendo deixado o ministério, Pe. Guilherme sempre mantinha contato com Dom Gregório, o diretor espiritual e a psicóloga. Durante esse período, chegou mesmo a escrever ao Bispo para pedir a liberação do celibato, afirmando que "havia deixado as portas ao sacerdócio abertas, mas não queria voltar e, quando pensava em voltar, pensava em todas as coisas que me aconteceram e me causava pânico".

Rumo oposto ao que imaginava e providência de Nossa Senhora


Sem fechar as portas e deixando Deus conduzir sua vida, o sacerdote conta que as coisas começava a trilhar o rumo oposto ao que tinha imaginado quando pediu a dispensa do ministério. "Diante de algumas coisas que aconteceram aqui na paróquia [Nossa Senhora de Lourdes, em Petrópolis] no dia de Nossa Senhora Aparecida, tive uma graça de Nossa Senhora”, contou o sacerdote, que se diz grande devoto da Virgem Maria.

"Eu falava muito com meu diretor espiritual, que nesta época já era Pe. Alexandre Brandão, que não me sentia realizado, mas não sabia o que Deus queria e não aguentava mais. Padre Brandão sempre falava: 'tenha paciência. Um cristão que comunga, que tem devoção pela Virgem Maria, que procura servir como você está fazendo, Deus não deixa desamparado. Não sabemos porque ele está demorando, mas espera'", recordou Pe. Guilherme.

Ele recorda que nesse momento percebeu que "o desejo de pedir a dispensa do celibato era uma fuga, não era realmente por liberdade. Vejo esse como o primeiro presente de Nossa Senhora para mim. Ela me impediu de tomar uma decisão que ia me fazer ser muito infeliz".




"Percebi que de novembro de 2016 a 12 de outubro de 2017 não foi um tempo de tomar decisões, mas de curar feridas", contou.

Os traços marianos que envolveram este período também são grandes. O tempo de "curar feridas" começou no mês em que a Igreja celebra Nossa Senhora das Graças e se concluiu no mês de Nossa Senhora Aparecida.

Quaresma de 2018 e início do retorno ao ministério


Após a ajuda de Nossa Senhora, Pe. Guilherme voltou a ver o sacerdócio como uma possibilidade. Durante a Quaresma de 2018 "Deus foi me mostrando que minha vida estava muito cômoda, que o tempo de cura já tinha passado e que o sacerdócio era realmente o que eu queria".

"Todo o tempo de Quaresma deste ano eu fui esperando a Páscoa, quarenta dias que fui perguntando a Deus o que queria de mim: 'se é ser padre outra vez, que na Páscoa o Senhor me diga'", disse.

Padre Guilherme em 3 de junho. Foto: Pascom Diocese de Petrópolis

Então, "no período de Páscoa, fui percebendo que eu era feliz como professor, sendo só o Guilherme, mas a minha felicidade como sacerdote era o que eu queria, o sacerdócio voltou a ser algo que eu queria".

Falou com o Bispo sobre esta decisão e que estava disposto a se "preparar para voltar", sem saber ainda quando. "Foram esses meses esperando o Senhor mostrar o dia", indicou.

Mais tarde, um novo toque da providência divina se fez ver na vida deste sacerdote. "Quando falei para o Bispo que queria conversar com ele, dez minutos antes ele tinha recebido a ligação do Frei Augusto, responsável pelo Lar São João de Deus, dizendo que eles estavam sem padre e precisavam de um padre". Agora, de volta ao sacerdócio, Pe. Guilherme irá servir como capelão neste lar de idosos.

Com informações de ACI Digital

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