20 março, 2016

Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo


Foto: Jesus crucificado

Por Michaell Grillo

Horto das Oliveiras. Era noite em Jerusalém. Após a ceia, na qual Jesus revelou o maior mandamento a ser apreendido pelos apóstolos e, a posteriori, pela humanidade, subiu o monte e naquele jardim frio suou sangue, expressando ao máximo a sua humanidade divina. O que escorrera de Sua fronte era sangue de receio; sangue da vitória, como horas depois fora mostrado em cima do madeiro, onde pregaram o Salvador como se fosse criminoso; onde ultrajaram o Messias como o mais iníquo dos seres. Mataram o Cordeiro, mas nós recebemos os frutos do sacrifício: a eucaristia e a Igreja, brotadas do lado de Cristo, como nos diz São Crisóstomo.

Apesar de pedir ao Pai para que, se possível, fosse afastado de Sua frente o cálice da morte, Jesus em nenhum momento pensou em resistir aos desígnios de Deus, pois compreendera ser necessário morrer para que todos tivessem a vida eterna e, assim, poderem caminhar nas estradas da vida tendo como companhia o Paráclito, aquele que desce dos céus; o mesmo soprado pelo construtor do Universo no início dos tempos e que agora era prometido por Jesus. E por assim ser seria cumprido, uma vez que Cristo é o portal da Verdade, por onde ela passa e pelo qual é retida. Como nos disse Santo André de Creta em um de seus sermões, citando o evangelista Mateus e o profeta Isaías: Jesus não discutiu, nem gritou e ninguém ouviu a sua voz. Pelo contrário foi manso e humilde.




Os apóstolos não compreenderam os prenúncios da Paixão, pois não podiam acreditar que o Messias, como o próprio Pedro anunciara quando Jesus o instigara sobre quem Ele havia de ser, teria curta passagem na terra. A morte, o sacrifício e a cruz não são bem aceitos na cultura ocidental. Por isso tamanha recusa por parte daqueles que O seguiam.

Mas, sob o prisma cristão não podemos encontrar vida se não ocorrer a morte, ou seja, vida e morte estão ligadas, mas sempre com a conscientização de que a primeira nunca sai derrotada, pois foi essa a aliança que Cristo fez no alto da cruz, enquanto era pregado por nossos pecados e jorrava o sangue de nossa soberba e auto-suficiência. É preciso suportar o peso da cruz; enfrentar os desafios e não permitir que os obstáculos daí resultantes sirvam como empecilhos para o evoluir natural da existência.


As Sagradas Escrituras, mais precisamente o Evangelho de São João, sabiamente nos prepara para os momentos em que, assim como Jesus, nos encontramos diante do Calvário, onde muitas vezes nos sentimos sozinhos, cambaleantes, sem força para suportar o peso do madeiro. Porém, Deus, nosso Pai misericordioso, nunca fecha os olhos para um filho e imediatamente após as nossas quedas, envia anjos sob formas humanas para enxugar o nosso pranto e nos ajudar a seguir com a cruz nos ombros. Percebemos, então, que a cruz permanece, mas ela agora parece mais leve, pois com ela está impregnada pela mansidão de Deus.

Como não lembrar de Verônica, que na sexta estação da via-sacra de Cristo quis ver o rosto de Deus e num ato de amor e compaixão, ofereceu um lenço a Jesus, ensanguentado pela fúria e maldade daquele grupo de judeus que o julgaram e o condenaram? Verônica é a personificação de tantas "Marias", "Carlas", "Josés", que nos encontram na correria do dia a dia e nos oferecem, muitas vezes, o único lenço que tem no bolso a fim de enxugar o nosso pranto. E como não lembrar de Simão, da região de Cirene, que é “obrigado”, pela brutalidade dos soldados, a ajudar Cristo a carregar aquela pesada cruz? Quanto amigo verdadeiro Deus coloca em nosso caminho para não permitir que desistamos diante da dificuldade de andar com passos firmes, já que o peso da cruz parece imensurável?




Caros, nessa Semana Santa, a mais importante de nosso calendário litúrgico, encontramos o cerne de nossa fé: a Ressurreição e a consequente vitória da vida sobre a morte, uma vez que o Espírito de Cristo, que não pode morrer, matou a morte homicida, como nos diz o bispo Melitão de Sardes, em uma de suas homilias sobre a Páscoa. Portanto, nos preparemos espiritualmente, nos despojando de todo e qualquer sentimento de ganância, vaidade e promiscuidade que possa existir, a fim de que possamos vivenciar bem os aspectos próprios da celebração dessa semana, como proposto a seguir:

I – Na solenidade do Domingo de Ramos, exultemos de alegria, pois o Salvador, o Rei dos Reis em sua mais pura humildade, vem ao nosso encontro montado em um burrico. Mas, ao contrário do povo influenciado pela elite religiosa judaica da época, não rejeitemos o Messias ao primeiro fraquejar de nossa fé. Que os nossos ramos espirituais venham bendizer o que vem em nome do Senhor, louvando o Altíssimo e o Onipotente e, novamente citando o bispo Santo André de Creta, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo e que depois perdem o verdor, prostremo-nos aos pés do próprio Cristo, como mandos estendidos.

II – Que durante a celebração da última ceia, estejamos com o nosso coração puro para ouvir o novo mandamento que Jesus nos deixou. Relatado no capítulo 13 do Evangelho de São João, o qual abre o que convencionamos de “Testamento de Jesus” (Jo 13 –17), o Mestre pede que todo o amor manifestado por Ele a cada um dos “irmãos” seja também semeado por nós em nossa sociedade, não diferenciando amigo de inimigo, uma vez que todos são iguais perante os olhos do Criador. Portanto, esqueçamos os pedestais que nos colocam acima dos outros e façamos como Jesus, que se inclina aos irmãos para, humildemente, lavar os pés de cada um.


III – Que na sexta-feira da Paixão do Senhor, resguardemo-nos a oração e ao reconhecimento de todo o sacrifício feito por Jesus em expiação a cada um de nossos pecados. Aproveitemos o momento para renovar, intimamente, nosso compromisso de sermos cristãos de verdade, sem a prática do pecado e com a firmeza na caridade e na oração, pois o sangue derramado do alto do madeiro não pode ser visto apenas como mais um acontecimento na história da humanidade, já que foi através desse sangue que alcançamos a liberdade eterna.

IV – Na Vigília Pascal, exultemos de alegria! Rompeu-se o silêncio, pois o sepulcro está vazio. Aleluia! Aleluia! A morte não pôde prevalecer diante da luz irradiada pela vida, dom concedido em graça e de graça por Deus a cada uma de suas criaturas. Nossa fé, representada nas velas acesas, espalhadas por toda a assembléia na noite do sábado santo, revigora-se ao saber que a promessa foi cumprida e que a humanidade foi retirada das profundezas do sepulcro e que a vida jorrara em abundância, como nos diz Melitão de Sardes. Agora, nos cabe celebrar a passagem da morte para a vida, verdadeiro sentido da Páscoa, que nos fez povo eleito para sempre, e aguardar o Espírito Santo que vem para nos renovar, transformando nossa vida em um verdadeiro Pentecostes.


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