22 fevereiro, 2013

João Paulo II e de Bento XVI: a via da expiação e da oração



Por Pe. Anderson Alves, diocese de Petrópolis
Artigo publicado originalmente no site Presbíteros

A Quaresma é para os cristãos um tempo de preparação para a festa da Páscoa. Durante esse período nos lembramos os 40 anos que Israel passou no deserto, os 40 dias de jejum, oração e penitência do Senhor antes de começar o seu ministério público. O deserto é um forte imagem bíblica: é o lugar do silêncio, da pobreza, do encontro com Deus; para atravessá-lo, é necessário descobrir e levar só o que é essencial para a vida. O deserto é também um lugar de solidão, de morte, no qual a tentação é sentida com mais força. É ainda um retrato do mundo atual, no qual as pessoas se tornaram áridas, sem coração, por causa do abandono da fé no verdadeiro Deus.






No deserto, Jesus é tentado pelo diabo três vezes. Todas as tentações são reduzidas ao querer colocar-se no centro de tudo, no lugar de Deus, removendo-o da própria existência ou tentando submetê-lo à nossa vontade. Todas as tentações são, pois, contra a fé, uma ameaça à confiança no verdadeiro Deus.

Para vencer as tentações é necessário colocar a Deus no centro das nossas vidas. E isto é a conversão que a Quaresma nos propõe. Essa se realiza quando analisamos a própria vida diante de Deus, buscando conhecer quem realmente somos, quais são nossas capacidades e limitações, perguntando-lhe sinceramente: o que queres de mim, Senhor? Isto não é fácil, porque muitas vezes não temos tempo para Deus, ou não queremos ouvir a sua voz. A tentação de nos colocar no centro de tudo é sempre muito forte.

Somos chamados na Quaresma a colocar nossas vidas diante de Deus com humildade. E é isso que o Papa Bento XVI fez: analisar repetidamente a sua consciência diante de Deus (conscientia mea iterum atque iterum coram Deo explorata, disse o Papa com uma linguagem agostiniana), perguntando-lhe com total disponibilidade: o que queres de mim? E o Senhor respondeu-lhe, de modo que o Papa chegou à certeza (ad cognitionem certam perveni) do que Deus lhe pedia. E Bento XVI respondeu generosamente, renunciando ao seu ministério para o bem da Igreja, a fim de que outro homem com mais força física do que ele possa continuar conduzindo a Igreja, que é de Cristo, no caminho da Nova Evangelização do deserto que se tornou nosso mundo.

O Papa fez assim um gesto surpreendente, porque foi um ato de fé e de humildade, e infelizmente não sabemos mais o que é viver de fé e o que seja a humildade. Hoje estamos sempre dispostos a julgar, porque não temos a coragem de analisar nossas vidas diante de Deus, como o Papa fez. É mais fácil refugiar-se em juízos superficiais. Neste período de conversão, devemos nos lembrar de que só Deus é onisciente, somente Ele pode julgar as intenções das pessoas, e por isso devemos ter muito respeito para com a consciência dos outros.
O Papa João Paulo II ao seu tempo analisou a sua vida diante de Deus que lhe pediu de viver os últimos anos de seu ministério como uma forma de expiação pelos nossos pecados; e a Bento XVI, Deus pede uma vida dedicada inteiramente à oração. Quem somos nós para julgá-los? Estes dois homens, provavelmente os dois melhores papas de história da Igreja moderna, tiveram a coragem de colocar-se diante de Deus, que lhes indicou o caminho da reconciliação e da oração. E essas duas coisas, a expiação e a oração, são as coisas essenciais da vida sacerdotal. E esses grandes homens de Deus a propõem a todos os sacerdotes. Quem somos nós para condená-los?

Além disso, eles ensinam a todos os cristãos a ter ousadia para entrar no deserto da intimidade com Deus, buscando seriamente a conversão, que inicia com o confronto da própria vida com a vontade de Deus. Isso nos faz reconhecer nossas capacidades e o que Ele realmente quer de nós. Portanto, devemos ter muita alegria e agradecer a Deus por esses homens que sempre serviram ao Senhor com generosidade e total dedicação.

E não devemos ser enganados por falsos profetas do mundo atual. Aqueles que agora criticam o Papa Bento XVI, por ser ancião e ter renunciado são os mesmos que criticaram João Paulo II por ser ancião e não ter renunciado. Os que se esquecem de Deus, estão sempre preparados para apedrejar ao seu próximo, mesmo com acusações contraditórias contra quem não fez cometeu nenhum pecado. Na história da Igreja há Papas santos que não renunciaram ao seu ministério e também um Papa santo (Celestino V) que renunciou ao mesmo.

Os cristãos que buscam a verdadeira conversão agradecem a Deus pelos ministérios brilhantes e complementares de João Paulo II e Bento XVI, que tiveram a humildade, a fé e a coragem de seguir a própria consciência, analisada ​​à luz de Deus; e agora rezam por Bento XVI, mostrando-lhe muito amor e agradecendo a Deus pelo bem que ele fez pela Igreja e pelo mundo durante todos estes anos. Papa Bento XVI sempre ensinou que a Igreja é uma grande família, a família dos filhos de Deus em caminho.

E qual o filho que, tendo um pai com 86 anos, que acabou de passar por uma cirurgia cardíaca, o critica por não poder mais trabalhar?

Peçamos ao Senhor que nos ajude a ser verdadeiros cristãos, que saibam amar uns aos outros como Jesus nos amou, nunca colocando-nos no lugar de Deus, julgando ou criticando quem sempre foi um pai exemplar e dedicado.




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